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Todos os dias, descobrimos coisas novas, ao mesmo tempo nos utilizamos das antigas. Cada um de nós tem uma história única, feita de nossas vivências e experiências. Ao nos enxergarmos como personagens de uma narrativa, entendemos a importância de contar nossas histórias de forma impactante e atrativa para outras pessoas, seja através de filmes, séries, jogos, livros, publicidade e até no mundo dos negócios.

Contar histórias é um hábito milenar, mas ainda tão importante até hoje! Ele remonta à época dos primórdios da humanidade, quando as pessoas contavam suas histórias ao redor de uma fogueira. Atualmente, chamamos isso de Storytelling e é uma forma poderosa de comunicação e preservação de tradições e cultura. O homem já utilizava essa arte de contar histórias desde sua época nas cavernas, deixando suas marcas na forma de pinturas nas paredes. Essas pinturas ensinavam às gerações seguintes os segredos da caça e da vida selvagem da época.

A arte de contar histórias é a chave que as pessoas sejam imersas em outras realidades e se conectem com as emoções, pensamentos e desejos dos personagens. Além disso, as histórias são um arma poderosa na persuasão e na venda de ideias e produtos, pois têm a capacidade de influenciar nossas opiniões, crenças e comportamentos.

Para tornar uma história verdadeiramente envolvente, é importante também criar personagens e um enredo envolvente. As emoções dos personagens são tão importantes quanto as ações deles. Além disso, é importante ter uma estrutura coerente e uma introdução clara, meio desenvolvido e uma conclusão satisfatória. O storytelling bem-feito é capaz de prender a atenção do público e transmitir uma mensagem profunda e duradoura. É uma habilidade valiosa que deve ser cultivada e aprimorada.

O primeiro tratado sobre storytelling remonta à antiguidade, quando Aristóteles escreveu seu primeiro tratado sobre a arte de contar histórias. Em A Poética, ele afirma que a espécie humana sente prazer e necessidade de imitar e representar objetos e situações. E isso se deve ao fato de que as histórias evocam emoções e memórias em cada um de nós. Desde então, a narrativa tem sido uma forma eficaz de transmitir conhecimento e proteger as pessoas do desconhecido.

Uma das histórias mais antigas que ilustra o poder da narração é a de Sherazade. Seu marido, o Sultão, iria matá-la logo depois da consumação da noite de núpcias; para sobreviver, ela lhe contava histórias até que ele dormisse, e assim foi por mil e uma noites. A capacidade de contar histórias salvou a vida dessa personagem.

A persuasão é um processo de captação da atenção do público, comum em diversos contextos, tais como folhetins, campanhas publicitárias e filmes. O sucesso da persuasão depende da habilidade de manter o interesse do espectador por um período prolongado.

É comprovado que o ser humano possui uma limitação temporal de 35 segundos para manter a atenção, após esse período, o cérebro precisa reiniciar para guardar a memória. A memória é fundamental para a nossa existência, pois é através dela que guardamos nossas histórias pessoais e conhecemos o mundo à nossa volta.

Dados também revelam que a média diária de tempo gasto assistindo televisão é de 5 horas, ouvindo música 5 horas e sonhando acordado 8 horas (sim, sonhando acordado, pois a maioria das pessoas simplesmente não se dá conta de quanto tempo passa distraído, olhando para o nada, confabulando e sonhando). Além disso, cerca de ⅓ da vida humana é gasta dormindo e, portanto, sonhando também. Isso explica o nosso interesse pelas histórias e a nossa capacidade de criar fantasias. A narrativa é fundamental para o ser humano e tem um impacto significativo em nossas emoções e reações. 

A selfie tirada por Ellen Degeneres no Oscar é um exemplo de como a narrativa pode ser utilizada para atrair a atenção das pessoas. Essa imagem foi parte de uma campanha publicitária da Samsung e tornou-se a imagem mais reproduzida do mundo naquela década. O poder dessa fotografia é fruto da concepção da “Gata Borralheira” às avessas, que retratou estrelas de Hollywood como pessoas comuns, o que, por consequência, encantou as pessoas comuns que se identificaram com aqueles famosos. 

O ser humano é conhecido como um animal dedicado ao storytelling, e isso se torna evidente se analisarmos como nossas áreas cerebrais reagem diferentemente às histórias e às emoções. Quando ouvimos uma história que nos agrada, produzimos serotonina, o mesmo hormônio produzido em situações positivas como ganhar um presente desejado.

Entretanto, é comum certa confusão a respeito do conceito de storytelling, pois muitas vezes as pessoas o associam apenas a histórias complexas e grandes. Quando se pensa em storytelling, tende-se a imaginar, por exemplo, romances, óperas, sagas épicas ou campanhas publicitárias. No entanto, o storytelling também pode ser aplicado para contar histórias mais simples, como anedotas, canções, contos, anúncios e crônicas, seguindo os mesmos princípios.

É possível afirmar que qualquer narrativa que possua uma história por trás, independentemente do meio em que é apresentada (seja num quadro na parede, num desenho rabiscado numa mesa etc.), é storytelling. Para exemplificar, existiu um anúncio da Nova Zelândia criado para vender um tipo de cereal. Este cereal tinha uma embalagem antiga e conservadora, e o sabor também não se alterava, pois aquela comunidade não gostava de mudanças. No entanto, as vendas estavam estagnadas, e a equipe de marketing não poderia como modificar a embalagem, o sabor ou o formato do cereal, correndo o risco de causar insatisfação. A solução foi contar uma história transmitida em um comercial de televisão que mostrava funcionários na fábrica examinando os cereais e descobrindo que havia um lote no formato de diamante, ao invés do formato tradicional quadrado. O conceito era trabalhar a ideia de que não se tratava de uma mudança, mas de uma descoberta dentro da fábrica. Como não foi visto como mudança, as vendas voltaram a crescer motivadas pela curiosidade da população em saborear o produto da embalagem diamante – aliás, que era exatamente o mesmo produto da embalagem quadrada.

Esta história enfatiza a importância de saber contar uma história, em vez de apenas saber o que se quer dizer. Narrar vai muito além de informar ou comunicar. Isso é especialmente relevante na publicidade, mas vale para qualquer pessoa que queira lançar algo. O diretor de marketing, por exemplo, pode saber o que quer comunicar (“vejam meu filme”, “comprem meu livro”), mas precisa saber contar a história de maneira atrativa para motivar as pessoas a se interessarem. Se ele simplesmente apresentar o produto, isso pode não ser suficiente para chamar a atenção.

Vivemos a era da desatenção. A maioria das pessoas está vivamente interessada em compartilhar suas próprias histórias e interagir com as histórias dos outros, tornando a tarefa de contar uma história realmente desafiadora. Isso tornou o mundo particularmente diferente do que era 30 ou 40 anos atrás, quando as pessoas estavam mais interessadas unicamente em receber histórias, lendo livros ou jornais. Além disso, décadas atrás, sentava-se ao sofá para assistir a um programa da televisão e dificilmente se ocuparia de outra atividade naquele mesmo momento. Hoje, muitas pessoas assistem à televisão, ao mesmo tempo em que enviam mensagens no WhatsApp e agem nas redes sociais, como Twitter ou Instagram, tornando ainda mais difícil a tarefa de atrair e manter a atenção delas.

As redes sociais são plataformas altamente dialogantes. A conversação é constante, e aqueles com as melhores histórias tendem a conseguir atrair mais atenção. No entanto, a confusão entre ficção e realidade é uma preocupação, como exemplificado pelo caso do avião da Malaysia desaparecido, que à época trouxe notícias de pessoas que confundiram o grave acidente com histórias de seriados famosos, como Lost.

Por esses motivos, é fundamental que sejamos críticos quanto às informações que consumimos e compartilhamos nas redes sociais, para evitar a perpetuação de equívocos e desinformação.

A concepção de jingles em anúncios publicitários, slogans, e títulos de filmes são exemplos de memes. Memes são conceitos amplamente conhecidos e transmitidos culturalmente, e têm um impacto significativo na sociedade. Por exemplo, a imagem e patrocínio de Tiger Woods pela Nike foram afetados devido a problemas pessoais enfrentados por ele, o que resultou em uma série de memes cômicos – e mais do que isso: afetou a imagem da Nike, que teve que recalcular a forma de lidar com esse problema, que acabou criando uma associação à marca por conta do patrocínio.

E a publicidade moderna possui papel relevante na criação de memes, que acabam transmitindo mensagens de forma efetiva e envolvente. Mesmo a expressão “meme” possui raízes na palavra grega “drama”, que significa “ação”. Aliás, drama é toda ação, todo movimento. Se houver movimento será, pois, um drama. 

De acordo com Aristóteles, toda história é a história de um personagem, o herói, que enfrenta um obstáculo em sua jornada. Esse obstáculo pode ser algo que ele simplesmente quer ou algo que ele não pode obter. Ao enfrentar esse obstáculo, o personagem muda e se desenvolve ao longo da história. Ao final da história, ele pode conseguir ou não, porém o mais importante mesmo é que, por correr atrás daquilo, esse personagem se modifica. É justamente essa modificação o cerne da jornada do herói.

Esse mesmo conceito se aplica a histórias em geral, incluindo filmes, como por exemplo Gravidade, que venceu um Oscar. A história de Gravidade se concentra em uma mulher com medo do espaço, mas obrigada a enfrentar esse medo por ter que ir para o espaço. Nesse processo, ela se transforma e evolui ao longo da história. É importante entender essa dinâmica de história e conflito para compreender plenamente a natureza de uma narrativa.

No setor audiovisual, existem várias estratégias possíveis devido à grande quantidade de conteúdo disponível e à demanda crescente de consumo por parte dos espectadores. Antigamente, a quantidade de filmes lançados no cinema, ou de artistas com novos álbuns ou CDs, ou de ofertas de livros era algo realmente limitado, todavia, atualmente são diários lançamentos de música, vídeos, blogs, filmes. Para destacar-se em meio a esse mar de informação, é necessário ter um plano e projeto, conhecendo bem as qualidades e defeitos do produto e buscando atrair a atenção do público. Às vezes, um determinado “defeito” pode ser o que torna o produto interessante.

Um exemplo é a estratégia de marketing usada para um filme de arte dos anos 80 chamado no original Down by Law, dirigido por Jim Jarmusch. O filme foi traduzido para o português como Daunbailó, mas foi de fato a estranheza em relação ao título que levou muitas pessoas a assistirem ao filme, o que resultou em sucesso de bilheteria e uma longa temporada em cartaz. Isso mostra como a estratégia de marketing pode ser importante para destacar o produto audiovisual e fazer com que a narrativa chegue até o público.

É importante destacar que somente nós, seres humanos, somos capazes de registrar e reproduzir nossas vivências. É interessante notar a padronização da narrativa aristotélica de monomito, encontrada em diferentes culturas, o que sugere que existe uma certa forma padrão de funcionamento da nossa mente em relação ao conteúdo narrativo. Mesmo sociedades que nunca se conectaram obedecem às mesmas regras e princípios da narrativa.

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